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Casa de Marimbondo - Parte 2

  • 17 de abr. de 2023
  • 6 min de leitura

Atualizado: 17 de abr. de 2025


Tem gente aí que acha

Que samba é contravenção

Eu saco bem o tipo

E sou de opinião

Que é nego que acredita

Que sempre tá com a razão

Meu samba sempre diz

Essa não essa não essa não

João Bosco e Aldir Blanc


Na primeira parte deste post (Casa de Marimbondo - Parte 1) que pretende ser uma crônica sobre o contexto político da história do samba, falamos dos primeiros anos, quando o samba na Casa das tias baianas da Cidade Nova era reprimido pela polícia, até a censura da ditadura Vargas à música de Wilson Batista, forçando-o a trocar "otário" por "operário" em "Bonde São Januário" tirando todo o caráter crítico da música.

No início dos anos 1940, o projeto de abertura da Avenida Presidente Vargas previa a destruição da Praça Onze, berço do samba. "Vão acabar com a Praça Onze", de Herivelto Martins e Grande Otelo se manifestava contra a decisão e se tornou o maior sucesso da dupla. Mas se ao longo dos anos 1940 e 1950, o samba viveu grande apogeu, durante a era de ouro do rádio, e aparecia no cinema nacional, nas chanchadas e em filmes dramáticos como Rio 40 graus e Rio Zona Norte (filmes com forte teor político) não era todo tipo de samba que circulava amplamente pela indústria do entretenimento. Aquele samba mais tradicional não tinha quase espaço onde prevalecia o samba-canção, samba de fossa e a bossa nova, já no final dos anos 1950. Foi neste contexto que em 1963, abria num sobrado da Rua da Carioca, no centro do Rio, um bar, restaurante e casa de samba, comandada pelo sambista Cartola, e por sua esposa Dona Zica, à frente da cozinha. Embora o Zicartola tenha durado apenas dois anos, seria cenário de um movimento de resistência cultural e política de enorme importância, frequentado pela nata da classe artística e intelectual do país, reunindo sambistas tradicionais, então em esquecimento (Zé Kéti, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara e o próprio Cartola), e novos talentos, como Paulinho da Viola, Nara leão, e Elton Medeiros, músicos, compositores, poetas de grande expressão como Tom Jobim e Dorival Caymmi, jornalistas como Jota Efegê e Sérgio Cabral, o diretor Augusto Boal, o cineasta Nelson Pereira dos Santos, o poeta e produtor musical Herminio Bello de Carvalho. Desses encontros surgiram expressões antológicas da arte brasileira, como os espetáculos Opinião, Rosa de Ouro, Noitada de samba.

Em resposta ao golpe militar, e a ditadura que se seguiu, surgiram músicas que davam evidência à miséria, às condições precárias nas favelas, aos salários aviltantes. “Acender as velas” retrata o velório de uma criança porque no morro, “Não tem automóvel pra subir/ Não tem telefone pra chamar/E não tem beleza pra se ver/ E a gente morre sem querer morrer”. Outras, mais ousadas, parecem bater de frente mais diretamente: “Podem me prender/ Podem me bater/ Que eu não mudo de opinião/ Aqui do morro, eu não saio, não!” Do Zicartola também surgiu o grupo que misturava sambistas consagrados com uma nova geração...e batizado em alusão à música de Zé Kéti, um dos integrantes, junto com Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, Zé Cruz e Oscar Bigode, trabalhando uma sonoridade mais autêntica dos morros, que não se ouvia nos programas de rádio.


Com o AI-5 e o acirramento da ditadura, Chico Buarque dá um drible magistral na censura, que inicialmente não percebeu a conotação política e versos como: “Hoje você é quem manda/ Falou está falado/ Não tem discussão/ A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão.”, os primeiros de “Apesar de você”. Quando o governo decidiu recolher os singles das prateleiras, já haviam vendido cem mil cópias. Depois do episódio, a censura ficou ressabiada com as músicas do Chico e passou a censurar tudo o que não compreendia. Foi então que ele criou o personagem Julinho da Adelaide, e uso esse nome para assinar duas composições, que passaram sem problemas pela censura: Jorge Maravilha (Você não gosta de mim, mas sua filha gosta) e Acorda, amor: “Se eu demorar uns meses/ Convém as vezes você sofrer/ Mais depois de um ano e eu não vindo/ ponha a roupa de domingo e pode me esquecer” era uma clara alusão aos presos políticos torturados, assassinados e desaparecidos nos porões da ditadura.


Nessa época, surgiu também uma parceria que rendeu muitos frutos. João Bosco e Aldir Blanc gravaram vários discos da maior relevância na história musical brasileira e músicas antológicas da produção cultural de oposição à ditadura. Entre elas, a que dá título a esta postagem. Em “Casa de marimbondo”, que não por acaso, serve de título para esta postagem, já começa botando o pau na mesa... “meu samba é casa de marimbondo, tem sempre enxame pra quem mexer/ Não sabe com quem está falando/ Nem quer saber”...A letra toda soa como uma resposta primorosa a quem se incomoda com a conotação política no samba: “Se o morro fica fazendo média e aceitando a situação, meu samba chega e de cara feia, da decisão...” Além dessas, a dupla assina vários sucessos como “Mestre-Sala dos Mares”, homenageando o Almirante negro João Cândido que liderou a Revolta da Chibata, em 1910, bem como “De frente pro crime”, “Kid Cavaquinho”, “O ronco da cuíca” e tantas outras.

No período da ditadura, surge uma infinidade de compositores, intérpretes, grupos musicais, espetáculos que constituem poderoso arsenal cultural contra a repressão: Gonzaguinha, Martinho da Vila, MPB4, Clara Nunes, Elis Regina, Elza Soares, Candeia, João Nogueira, Paulo César Pinheiro, todos com músicas de forte cunho político e grande relevância para a história da MPB, além de a famosa Noitada de samba, no mesmo Teatro de Arena que foi palco do Opinião. E, lamentavelmente, também teve samba alinhado com a ditadura. Em 1974, a Beija-Flor, levava para a Avenida o enredo O Grande Decênio, enaltecendo os dez anos do Regime Militar. Mas no final da década de 1970, no embalo da abertura, surgiu o Clube do Samba, capitaneado por João Nogueira, novo movimento cultural a abrir espaço para bambas da nova geração e da velha guarda, onde iria surgir a Beth Carvalho e impulsionar a carreira de vários outros que surgiram ao longo da década de 1970.


  Em 1984, com a campanha pelas diretas, “Vai Passar” de Chico Buarque trazia à tona o passado de um povo sofrido, refém de dominações violentas, com direito a alegrias efêmeras como o carnaval, para projetar um futuro mais próspero, com “a cidade a cantar a evolução de sua liberdade”. Ao final de vinte anos de terror, “Vai Passar” provocava uma alegria inebriante, mas esperançosa, produzida num contexto que guarda semelhanças com a sua mais recente composição, “Que tal um samba?”, lançada em 2022, já anunciando – ou propondo - novos ares, depois de 4 anos de um governo genocida e ideologicamente identificado com os ditadores do passado, conduzido por um presidente que enaltecia torturadores. Em 2019, a Mangueira se sagraria campeã com um samba maravilhoso em enredo sobre a história do Brasil protagonizada pelo povo.


E justamente durante as eleições de 2022, que um comentário indignado de uma moça no perfil do “Samba do Trabalhador’ (uma roda comandada por Moacyr Luz que acontece desde 2005 no Clube Renascença) me deu a ideia para a elaboração deste texto. O motivo da insatisfação era uma promoção que a roda ofereceu naquele dia, não cobrando entrada de quem usasse os adesivos de campanha para o atual presidente Lula. Afinal, ela tinha ido lá só para “curtir um samba”. Pois eu posso apostar que compreender todo o contexto histórico e político em que o samba se desenvolveu, ajuda a curtir muito mais!


Ouça a playlist especial desta postagem, com uma coletânea de sambas históricos de contextos políticos.


Procure por Ilustre Samba - Casa de Marimbondo ou clique no link abaixo:


Zicartola (Zé Kéti, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho e Sérgio Cabral, pai.
Zicartola (Zé Kéti, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho e Sérgio Cabral, pai.
Zicartola (Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho, Cartola e Sérgio Cabral. pai.
Zicartola (Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho, Cartola e Sérgio Cabral. pai.
Capa do disco de Chico Buarque, de 1978, com a faixa Apesar de você, liberada com a abertura.
Capa do disco de Chico Buarque, de 1978, com a faixa Apesar de você, liberada com a abertura.
Noitada de Samba, no Teatro Opinião.
Noitada de Samba, no Teatro Opinião.
Clementina de Jesus, em Noitada de Samba, no Teatro Opinião.
Clementina de Jesus, em Noitada de Samba, no Teatro Opinião.
Candeia, no Noitada de Samba, no Teatro Opinião.
Candeia, no Noitada de Samba, no Teatro Opinião.
Cartola, no Noitada de Samba, no Teatro Opinião.
Cartola, no Noitada de Samba, no Teatro Opinião.
Aldir e João, xilogravura.
Aldir e João, xilogravura.
João e Aldir, canetas dual brush e nanquim.
João e Aldir, canetas dual brush e nanquim.
Releitura de capa LP Galos de briga, de João Bosco, d'aprés Glauco Rpdrigues
Releitura de capa LP Galos de briga, de João Bosco, d'aprés Glauco Rpdrigues
Releitura de capa LP Caça à raposa, de João Bosco, d'aprés Glauco Rpdrigues
Releitura de capa LP Caça à raposa, de João Bosco, d'aprés Glauco Rpdrigues
Clube do Samba.
Clube do Samba.
Clube do Samba.
Clube do Samba.
Samba do Trabalhador
Samba do Trabalhador
Samba do Trabalhador
Samba do Trabalhador
Chico Buarque em "Que Tal um samba", de 2022.
Chico Buarque em "Que Tal um samba", de 2022.


 
 
 

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