Ilustres escritores do nosso samba
- 22 de jul. de 2022
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Dia 25 de julho é dia do escritor, uma ótima oportunidade para falarmos da importância dos escritores do nosso samba, cujo legado é um verdadeiro tesouro literário. A história do samba, carregada de emoções literárias, é a perfeita consagração da jornada do herói. Perseguido pela polícia até a década de 1920, restrito aos terreiros das casas das tias baianas da pequena África, o samba começou a viver seu apogeu na década de 1930, já modificado pela turma da Estácio. Movimento logo seguido por Noel Rosa, da Vila, Cartola, da Mangueira, e Paulo da Portela. Entra em cena a indústria fonográfica, o rádio, e figuras como Francisco Alves, que ia buscar novos talentos nos morros e subúrbios, para comprar seus sambas, impondo seu nome nas parcerias, prática pela qual foi muito criticado. Mas era o início de um novo mercado que despontava. Ao longo da década o samba flertou com o choro, com marcha carnavalesca, com o jazz, com o boogie-woogie, na aproximação cultural com os Estados Unidos, na política de boa vizinhança do pré-segunda guerra. Depois veio o samba exaltação, arte da qual Ary Barroso foi o maior mestre. Veio o samba sincopado, consagrado por Geraldo Pereira, o samba de breque, com Moreira da Silva, e até o samba-rock, que tem em Jorge Ben, seu maior expoente. Durante a ditadura, veio o samba de protesto, durante a ditadura, desde Opinião à parceria de João Bosco e Aldir Blanc, além de Chico Buarque, com pérolas como Apesar de você, Partido alto, Samba de Orly e Vai Passar, esta última já nos anos de abertura, no início da década de 1980, quando o pagode ganha força com Jovelina Pérola negra, Zeca, Arlindo Cruz e o Fundo de Quintal. Entre o final dos 80 e início dos 90, com o sucesso do pagode paulista, o samba parecia viver novos momentos de ostracismo. Mas como bem disse Nelson Sargento, o samba “agoniza, mas não morre“ e, desde o movimento de revitalização da Lapa, em fins dos anos 90, encabeçado pelo saudoso Eduardo Galotti e a geração do Semente, da Teresa Cristina, Pedro Miranda, Casuarina e outros, o samba revive momentos de glória e vem ocupando seu espaço cativo no mercado fonográfico.
O Blog “Ilustre Samba“ foi pensado a partir da linda trajetória deste que é o gênero musical mais representativo da cultura do país. A história do samba, no contexto acadêmico ou literário, seja gerando reflexões socioculturais ou narrando episódios dos mais saborosos da literatura brasileira, constitui uma riqueza de imenso valor de nossa produção cultural. Graças ao interesse de grandes escritores, temos os mais variados registros, através dos quais, é possível se construir, como num quebra-cabeça, toda a história do desenvolvimento do samba, ao longo do século XX, como procurei esboçar acima.
Podemos citar aqui nomes de nossa literatura que já escreveram eventualmente sobre alguma batucada no morro, como João do Rio ou Luiz Edmundo. Outros se dedicaram a trabalhos mais longos e dedicados, como o jornalista Francisco Guimarães, vulgo Vagalume, repórter da madrugada carioca desde o início do século, ou Orestes Barbosa. Ambos lançavam em 1933, dois livros que procuravam narrar, já naquele tempo, uma história deste então jovem gênero musical. O de Orestes teve na capa uma ilustração de um jovem Nássara, que se consagraria na música e na ilustração brasileira. Este livro, infelizmente, ainda não tive a oportunidade de ler. Apenas o folheei rapidamente, quando pesquisava imagens antigas do samba, na sala de pesquisa do Instituto Moreira Sales. Já o de Vagalume, terminei de ler recentemente e é muito curioso perceber sua visão romântica de que a industrialização seria a morte do samba.
Quase um século depois, podemos perceber que a indústria fonográfica é que iria reposicionar o samba na história, mesmo que para isso, tenha deturpado alguns valores mais autênticos de sua origem, como protestava Vagalume. Mas a mudança foi provocada também pela transformação do samba amaxixado, como era a antológica "Pelo telefone", registrada por Donga e Mauro de Almeida, em samba de sambar, com andamento mais acelerado. Este Mauro de Almeida, o “Peru dos pés-frios” foi outro jornalista apaixonado pela música popular e inserido no reduto da Pequena África.
Na década de 1940, temos a famosa pesquisa de Mário de Andrade, em que dedica ao samba, boa parte de seu famoso Compêndio da Música Popular. De fato, o Brasil moderno passava a olhar com orgulho para as suas raízes e começava a se aproximar e valorizar a cultura popular. Mas já de muitos anos, havia artigos preciosos como os de Prudente de Moraes Neto e Sérgio Buarque de Holanda, na revista Estética, editada pela dupla, publicação da década de 1920. (Continua depois das ilustrações).

Já na década de 1960, temos o famoso "Música Popular Brasileira" de José Ramos Tinhorão que exalta o samba, mas é bem crítico com a Bossa Nova. Em fins de 1960, ele pesa a mão sobre o disco Os Afro-sambas, de Baden e Vinícius, para o jornal cultural "O Sol", no tempo em que vinha como encarte do Jornal dos Sports. Nessa época, o já veterano jornalista João Ferreira Gomes, assinando como Jota Efegê, escreve grandes obras da bibliografia musical do país, quando começa a publicar uma importante obra voltada ao carnaval e à música popular. (continua depois das ilustrações).

São deles trabalhos importantes como "Ameno Resedá: o rancho que foi escola", publicado em 1965, "Maxixe: a dança excomungada", de 1974, "Figuras e coisas da música popular brasileira", de 1978 e "Figuras e coisas do carnaval carioca", de 1982. Nesta mesma época, o jornalista Sérgio Cabral foi outro que deixou trabalhos fundamentais. Totalmente inserido no meio musical, Cabral teve a oportunidade de registrar depoimentos de todos os grandes nomes que protagonizaram os primeiros passos do samba no Rio de Janeiro. Foi um dos editores do célebre semanário de humor, O Pasquim, e foi também produtor musical na década de 1970. Sua obra que começa com "Escolas de samba, o que, quem, onde, como quando e porque" é a sua primeira empreitada, em 1974. Depois escreveu vida e obra de Pixinguinha (1977), de Tom Jobim (1987), e “No tempo do Almirante (1991)”, “No tempo de Ary Barroso (1993)“, “Elizete Cardoso” (1994) e resgata o tema do primeiro livro em 1996, com "Escolas de Samba do Rio de Janeiro". Escreveu também sobre a Mangueira e seu último trabalho foi sobre Ataulfo Alves.
No final dos anos 80, João Máximo e Carlos Didier nos brindam com uma biografia definitiva de Noel Rosa, tão saborosa e literária quanto foi a breve e agitada vida do poeta da Vila. (Continua depois da ilustração).
Nei Lopes, parceiro de Wilson Moreira, com quem já havia gravado grandes sucessos como "Gostoso veneno", "Fidelidade partidária", "Malandros maneiros", entre outros, surge como pesquisador no início da década de 1990, com "O negro no Rio de Janeiro e sua tradição musical", onde resgata em ordem cronológica todos os movimentos da música do negro na cidade. É autor de mais de 20 livros, entre romances e estudos sobre o samba e a música popular. É também dos anos 1990, a pesquisa acadêmica de Roberto Moura sobre Tia Ciata, em que o autor investiga momentos bem anteriores ao surgimento do que conhecemos hoje por samba. Outro Roberto Moura, este crítico musical, também tem um livro, “No princípio era a roda”, em que defende que foi a roda que gerou o samba e não o contrário. Hermano Vianna procurou entender qual “O mistério do samba”, que o levou da perseguição à consagração. No livro, ele menciona uma noitada que reunira Gilberto Freyre, Prudente de Moraes Neto, Sérgio Buarque de Holanda, Pixinguinha, Vila Lobos e Donga, em 1926. Provavelmente na Casa de Tia Ciata. Encontro simbólico entre a cultura elitista e a cultura popular, marca indelével do modernismo. Da mesma época é o “Feitiço Decente”, de Carlos Sandroni, procura explicar o mesmo movimento através de análises mais estruturais da música, do que pelo contexto social e cultural. Lyra Neto apresentou recentemente a história de vida de Wilson Batista, que se lançou com a famosa disputa musical com Noel Rosa. Humberto Franceschi publica em 2014 o seu "Samba de sambar" sobre esse samba da turma da Estácio que revolucionou o gênero.
E certamente estou esquecendo de muitos outros, mas a - digamos - história da história do samba não para de ser ser escrita. Aliás, cada vez mais são publicados mais títulos sobre o tema e eu diria que uma biblioteca completa sobre o gênero musical carece de uma estante já bem grande e espaçosa. Creio que todos podem ser encontrados em sebos virtuais ou em PDF na internet.









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